Programa Conversas sobre Agroecologia vai ao ar às 5 h, com reprise às 17 h.

Agroecologia como ciência para um futuro sustentável

Francisco Roberto Caporal

Em programas anteriores conversamos sobre a necessidade de mudanças profundas em nossos formas de produção e consumo para que possamos avançar na direção da sustentabilidade. Isso é, sem dúvidas, um enorme desafio. Entretanto, ao longo das últimas décadas, em paralelo à construção do enfoque ecotecnocrático de sustentabilidade, vem se consolidando um novo paradigma para orientar o desenvolvimento rural e uma nova ciência para dar suporte a estratégias alternativas: a Agroecologia.

Como todos sabemos, as evidências das crises ambiental, social e alimentar, fruto do atual modelo de desenvolvimento, vêm sendo estudadas já faz muito tempo. Os dados que vez por outra aparecem para alarmar o mundo, não são mais que o somatório dos resultados trágicos daquilo que se convencionou chamar de desenvolvimento. Talvez a diferença é que temos cada vez mais e melhores instrumentos de medição e aferição dos danos socioambientais e dos resultados negativos de nossas estratégias desenvolvimentistas. Por exemplo: o aumento da contaminação da atmosfera por gases de efeito estufa e o consequente aquecimento global, são velhos conhecidos. A novidade é que estamos chegando a limites insuportáveis que podem vir a causar tragédias humanas nunca antes vividas na história. Do mesmo modo, estamos perto da marca de 1 bilhão de famintos no mundo, quando todas as promessas da ciência e da tecnologia diziam que iriam resolver o problema da alimentação.

Entre muitas outras, estas são duas razões extremas e suficientes para indicar que necessitamos buscar outros rumos para nosso desenvolvimento. A aplicação de doses mais elevadas e poderosas do mesmo remédio – crescimento econômico com concentração de riqueza e poder – já se mostrou demasiado ineficiente para atacar as crises a que chegamos. Logo, precisamos encontrar e colocar em prática formas de minimizar os impactos negativos do nosso modo de produção e consumo.

A Agroecologia, como ciência da complexidade, vem se constituindo num dos campos de conhecimento mais poderosos para o enfrentamento do panorama atual. Sua gênese está justamente no estudo de dois tipos de ecossistemas: os ecossistemas naturais e os agroecossitemas tradicionais (camponeses, indígenas). Ambos oferecem elementos de análise para entender a sustentabilidade a longo prazo. Os ecossistemas naturais se constituem em referência para o entendimento das bases ecológicas da sustentabilidade

em cada bioma. Do mesmo modo, os agroecossistemas tradicionais indicam como diferentes culturas e povos conseguiram coevolucionar com seus ambientes, construindo um balanceamento entre fatores ecológicos, tecnológicos e socioeconômicos que permitiu atender as necessidades das pessoas ao longo do tempo. Ademais, a Agroecologia bebe de outras fontes e campos de conhecimento científico: da Física, da Antropologia, da Sociologia, da Economia Ecológica, da Ecologia, entre outros. A articulação entre conhecimentos científicos e saberes populares é um dos elementos que diferenciam a Agroecologia de muitas outras ciências. Por exemplo: entender a insustentabilidade da agricultura convencional agroquímica a partir da Física, mais específicamente, das Leis da Termodinâmica, e articular este conhecimento com as razões pelas quais sistemas tradicionais apresentam características de sustentabilidade diferentes a partir do estudo da Entropia, assegura à Agroecologia umas bases epistemológicas diferenciadas dos modos cartesianos de estudar o desenvolvimento dos sistemas agrícolas e as sociedades a eles vinculadas.

Por isso mesmo, a perspectiva holística e o enfoque sistêmico são fundantes para ciência agroecológica e permitem uma análise da sustentabilidade a partir da complexidade e não da simplificação. Do mesmo modo, este tipo de análise encaminha para desenhos diferenciados de agroecossistemas que possam ser mais sustentáveis em todas as dimensões: econômica, social, ambiental, cultural, política e ética.

Como já definiu Eduardo Sevilla Guzmán, Agroecologia trata do manejo ecológico dos recursos naturais através de formas de ação social coletiva para o estabelecimento de sistemas de controle participativo e democrático nos âmbitos da produção, da circulação e do consumo. Trata-se, segundo este autor, de conter as formas insustentáveis de produção e consumo, ou seja, redirecionar o curso alterado e desequilibrado da coevolução social e ecológica, mediante um controle das forças produtivas que estanque seletivamente as formas degradantes e espoliadoras da natureza e da sociedade.

Para Eduardo Sevila, a Agroecologia pode ser entendida a partir de três grandes enfoques: ecológico e técnico agronômico; socioeconômico ou de transformação e, um terceiro que teria um caráter sociocultural e político.

Resumindo, a Agroecologia se consolida como enfoque científico na medida em que este campo de conhecimento se nutre de outras disciplinas científicas, assim como de saberes, conhecimentos e experiências dos próprios agricultores, o que permite o estabelecimento de marcos conceituais, metodológicos e estratégicos com maior capacidade para orientar não apenas o desenho e manejo de agroecossistemas

sustentáveis, mas também processos socioeconômicos das estratégias de desenvolvimento rural sustentável.

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