Programa Conversas sobre Agroecologia vai ao ar às 5 h, com reprise às 17 h.

Debate Nacional sobre Educação em Agroecologia

Por: Francisco Roberto Caporal

Como já mencionamos em conversas anteriores, a Agroecologia é uma ciência emergente, do campo da complexidade e que pode contribuir para o estabelecimento de estratégias mais sustentáveis de desenvolvimento rural e para o desenho de agriculturas socioambientalmente mais sustentáveis e culturalmente adaptadas. O Brasil vem se destacando mundialmente pelo avanço desta nova ciência e pela aplicação dos pressupostos deste novo paradigma não só em pesquisas como também em experiências concretas de comunidades rurais de todos os biomas brasileiros.

A convergência das ações e dos avanços em Agroecologia vêm sendo estimuladas no país inteiro por duas grandes organizações: a Associação Brasileira de Agroecologia – ABA, no campo técnico-científico (www.aba-agroecologia.org.br) e a Articulação Nacional de Agroecologia – ANA, no campo dos movimentos e organizações da sociedade civil. (www.agroecologia.org.br). Ambas, têm buscado ampla coalização com entidades e organizações que atuam em defesa da saúde, organizações dos consumidores, do desenvolvimento rural sustentável, da oferta de alimentos sadios, da economia solidária, entre outras, visando à união de forças no sentido da elaboração de propostas concretas para um novo desenvolvimento rural e novos estilos de agricultura. Não é, pois, por acaso, que a Agroecologia, nos últimos anos, vem ganhando mais adeptos em todos os setores da sociedade, em particular no meio rural, mas também entre os consumidores, assim como nas instituições públicas e privadas de pesquisa, ensino e extensão rural. Do mesmo modo, cresceu a participação cidadã, o que tem ficado demonstrado pela presença de milhares de pessoas aos congressos brasileiros de Agroecologia.

A trajetória da Agroecologia, no Brasil, seguramente tem como origem o movimento pela “agricultura alternativa” do final da década de 70 e início nos anos 80 do século passado, cujos esforços e militâncias buscaram sinergias que desembocaram na construção da Agroecologia como ciência, nos anos 80 e 90. Do ponto de vista institucional, a primeira e ampla experiência do setor público agrícola aconteceu na EMATER-RS (Empresa de Extensão Rural do Rio Grande do Sul), no período 1999 a 2002, quando a Agroecologia foi adotada como enfoque orientador das ações sociotécnicas dos extensionistas rurais vinculados àquela instituição. Em nível nacional, a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, publicada em 2004, foi a primeira política pública federal a adotar as orientações da Agroecologia. Essa política teve um papel importante no fortalecimento deste novo enfoque, na medida em que colocou como premissa que nas ações de apoio ao desenvolvimento rural deveriam ser adotados os princípios da Agroecologia. Neste sentido, foi uma política pública precursora, pois foi através dela que, pela primeira vez, o Estado nacional imprimiria uma orientação clara baseada nesta nova ciência.

A força da construção do novo paradigma agroecológico está cada vez mais evidente, seja pela presença de ações concretas de milhares de agricultores familiares, seja pelas atividades de extensão rural dispersas pelo interior do Brasil ou mesmo pela criação de projetos de pesquisa na EMBRAPA e em algumas das organizações estaduais de pesquisa. Entretanto, não menos importante começam a ser as ações no campo da educação formal. Nosso país se tornou, em poucos anos, o primeiro a contar com o surgimento crescente de cursos de Agroecologia. Os últimos dados informam que existem hoje no país mais de 110 cursos de Agroecologia ou com enfoque em Agroecologia desde o nível fundamental, passando pela formação de Tecnólogos, de licenciados ou de bacharéis e, inclusive, em cursos de especialização, mestrado e doutorado. Assim mesmo, nas Instituições de Ensino Superior já foram criados cerca de 100 Núcleos de Agroecologia.

Esta explosão de novos Cursos e Núcleos, apesar de ser importante, preocupa porque esta nova ciência do campo da complexidade exige professores e pesquisadores com uma visão diferenciada, com uma formação que esteja compatível com as bases epistemológicas da Agroecologia e que, portanto, possam contribuir mediante novos enfoques pedagógicos, metodológicos, técnicos, etc, que não são os mesmos das ciências agrárias convencionais. A Agroecologia requer um novo profissionalismo em todos os campos, inclusive na educação e este é o grande desafio.

Não sem razão, a Associação Brasileira de Agroecologia vem capitaneando, ao longo dos últimos anos, um amplo processo de debate e reflexões sobre Educação em Agroecologia, pretendendo construir conhecimentos que possam ser úteis tanto para a qualificação dos cursos já em funcionamento, como levantar subsídios para os Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia para que, no futuro, possamos vir a ter uma política nacional e os recursos necessários para uma adequada formação em Agroecologia.

Este é mais um desafio para todos e todas que buscam uma sociedade mais sustentável.

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